Deficiência de ferro: o que dizem as Diretrizes ASH 2026

out 5, 2026

A deficiência de ferro é um dos problemas nutricionais e clínicos mais frequentes no mundo. O seu diagnóstico depende de exames laboratoriais que nem sempre são interpretados da mesma forma entre médicos e serviços de saúde.

Em setembro de 2026, foi publicado, no periódico Blood Advances, o “American Society of Hematology 2026 guidelines for diagnosis of iron deficiency”. Trata-se de um guia de prática clínica cujo objetivo é fornecer recomendações baseadas em evidências para o diagnóstico da deficiência de ferro a partir de uma perspectiva global, com foco central na escolha dos limiares de ferritina sérica usados para definir a doença em diferentes populações.

O guia organiza seu conteúdo em torno de cinco recomendações (Figura 1), cada uma voltada a uma população específica, além de conceitos metodológicos centrais que sustentam as escolhas do painel.

Novos limiares de ferritina para o diagnóstico da deficiência de ferro 

IST: índice de saturação da transferrina.

Recomendação 1 — Crianças de 9 meses a 4 anos

O guia sugere o uso do limiar de ferritina sérica ≤ 20 ng/mL, em substituição ao limiar de ≤ 12 ng/mL, para o diagnóstico de deficiência de ferro. (recomendação condicional, baseada em baixa certeza da evidência sobre os efeitos).

Recomendação 2 — Adultos (excluindo mulheres que menstruam e gestantes)

O guia sugere o uso do limiar de ≤ 30 ng/mL em vez de ≤ 15 ng/mL (recomendação condicional, baseada em baixa certeza da evidência sobre os efeitos. Para pessoas com sinais ou sintomas associados à deficiência de ferro, ou com fatores de risco contínuos, o limiar de ≤50 ng/mL é considerado mais apropriado. O limiar se aplica a adultos sem inflamação conhecida ou suspeita.

Recomendação 3 — Mulheres que menstruam

O guia sugere o uso do limiar de ≤ 30 ng/mL e sugere contra o uso do limiar de ≤ 15 ng/mL (recomendação condicional, baseada em baixa certeza da evidência sobre os efeitos). Para pessoas com sangramento menstrual intenso (SMI) ou outras formas de sangramento uterino anormal (SUA), o limiar de ≤ 50 ng/mL é considerado mais apropriado. O artigo inclui ainda como declaração de boa prática a obtenção de uma história menstrual detalhada para essa avaliação.

Recomendação 4 — Gestantes 

O painel sugere o uso do limiar de ≤ 30 ng/mL (recomendação condicional, baseada em baixa certeza da evidência sobre os efeitos) e recomenda contra o uso do limiar de ≤ 15 ng/mL (recomendação forte, baseada em baixa certeza da evidência sobre os efeitos). Para gestantes com anemia, o limiar de ≤ 50 ng/mL pode ser apropriado. 

Recomendação 5 — Adultos com anemia da inflamação 

O guia sugere a realização conjunta de ferritina sérica e do índice de saturação de transferrina (IST), em vez de ferritina isolada (recomendação condicional, baseada em muito baixa certeza da evidência sobre os efeitos). A deficiência de ferro pode ser considerada quando IST < 20% ou ferritina sérica < 100 ng/mL. O artigo também traz como declaração de boa prática que a anemia da inflamação pode estar presente simultaneamente com outras causas de anemia. 

Da “normalidade” ao limite de decisão clínica 

Ao propor limites de decisão clínica mais altos, o guia sinaliza, de forma implícita, mas consistente, que valores de ferritina antes considerados “normais” podem, na verdade, representar deficiência de ferro relevante, sobretudo quando há sintomas ou fatores de risco (Tabela 1). Além disso, indica que limiares diagnósticos baseados apenas na distribuição estatística de populações saudáveis não cumprem adequadamente o papel de orientar decisões clínicas. Dessa forma, o artigo propõe uma escala de limiares conforme o contexto clínico, em vez de um único valor universal. 

Sinais, sintomas e fatores de risco para deficiência de ferro 

Tabela 1 — Sinais, sintomas e fatores de risco em adultos não menstruantes e não gestantes  

Categoria  Itens listados no artigo 
Sinais  Taquicardia, sopro (na presença de anemia); depapilação da língua, quelose, coiloníquia (unhas em colher), alopecia difusa não cicatricial do couro cabeludo 
Sintomas  Fadiga, redução da qualidade de vida; redução da função cognitiva; síndrome das pernas inquietas; pica/pagofagia (desejo de gelo); redução da tolerância ao exercício 
Fatores de risco — estado fisiológico  Exercício extremo 
Fatores de risco — perda de sangue  Doença inflamatória intestinal, úlcera péptica, gastrite, neoplasias gastrointestinais, doação de sangue, cirurgia, telangiectasia hemorrágica hereditária, infecção por ancilostomídeos ou parasitas 
Fatores de risco — baixa ingestão de ferro  Dieta restritiva, incluindo vegana ou vegetariana 
Fatores de risco — absorção reduzida  Cirurgia de bypass gástrico, refluxo gastroesofágico ou gastrite, infecção por Helicobacter pylori, uso prolongado de inibidor de bomba de prótons/antiácido, doença celíaca, procedimento cirúrgico bariátrico 

Ferritina e inflamação: por que o IST também é importante? 

Os autores ressaltam também a importância de rastrear a deficiência de ferro por meio da ferritina sérica em todas as gestantes e em outras populações de alto risco. Destacam ainda que, como a ferritina é uma proteína de fase aguda, seu valor isolado pode ser enganoso em contextos inflamatórios. Por isso, o guia recomenda associar o IST, reconhecendo a limitação fisiológica da dosagem isolada da ferritina nesses casos.  

Por que as novas Diretrizes ASH 2026 são importantes? 

Este artigo é extremamente relevante, pois: 

  1. Atualiza limiares consolidados, ao propor limiares mais altos (≤ 20 e ≤ 30 ng/mL) em relação aos tradicionalmente usados (≤ 12 e ≤ 15 ng/mL), e reposiciona o diagnóstico em direção à detecção mais precoce. 
  1. Traz recomendações específicas para mulheres que menstruam, gestantes e pessoas com inflamação, grupos que exigem abordagens diagnósticas distintas e que nem sempre recebem orientação própria em diretrizes. 

O que muda na prática?

As Diretrizes ASH 2026 para o diagnóstico da deficiência de ferro representam uma mudança de paradigma na interpretação da ferritina sérica. Em vez de limiares estatísticos de normalidade, o guia propõe limites de decisão clínica mais altos: ≤ 20 ng/mL em crianças e ≤ 30 ng/mL em adultos, mulheres que menstruam e gestantes. Em situações de maior risco, o limiar pode chegar a ≤ 50 ng/mL. Para adultos com inflamação, destaca-se ainda o uso combinado da ferritina sérica e do IST.

Até a próxima!

Equipe Erytro.

Referência: Powers JM, Lim MY, Achebe MO, et al . American Society of Hematology 2026 guidelines for diagnosis of iron deficiency. Blood Adv. 2026 Aug 24:bloodadvances.2025015950. DOI: 10.1182/bloodadvances.2025015950. Epub ahead of print. PMID: 42747316.

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