Como construir um estoque ideal para uma agência transfusional

por | ago 3, 2026

A segurança transfusional depende não apenas da qualidade dos hemocomponentes, mas também da sua disponibilidade nos serviços de hemoterapia. O médico responsável técnico de uma agência transfusional e o serviço de hemoterapia fornecedor de hemocomponentes enfrentam um desafio permanente de manter um estoque que atenda à demanda clínica sem gerar perdas excessivas por expiração ou escassez que comprometa o atendimento aos pacientes.

Historicamente, a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomendava como referência a taxa de 40 unidades de concentrado de hemácias por 1.000 habitantes como parâmetro para planejamento. No entanto, estudos demonstram que esse indicador é inadequado na prática, uma vez que o consumo de hemocomponentes está muito mais relacionado à composição etária da população do que ao seu tamanho absoluto.

A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), em sua publicação de 2010, estabeleceu recomendações detalhadas para a estimativa da necessidade de sangue e hemocomponentes, propondo uma metodologia baseada na classificação dos pacientes em quatro grandes grupos e na coleta sistemática de dados epidemiológicos e transfusionais (OPAS, 2010). Este blog tem como objetivo fornecer ao responsável técnico de agência transfusional um roteiro prático e baseado em evidências para a confecção do estoque de ideal, integrando as recomendações da OPAS, os achados de estudos demográficos e os modelos matemáticos de otimização da cadeia de suprimentos.

Recomendamos analisar a estimativa das necessidades transfusionais do seu serviço seja baseada no porte do seu serviço e atendimento dos grupos de doentes abaixo:

  • Afecções clínicas: doenças onco-hematológicas e doenças gastrointestinais
  • Intervenções cirúrgicas que abrangem: cirurgias cardiovasculares, atendimento de pacientes vítimas de traumatismo e outras cirurgias de grande porte.
  • Afecções ginecológicas e obstétricas: risco de hemorragias periparto.
  • Afecções do período neonatal: abrangem certas afecções do período perinatal, que demanda um conhecimento e hemocomponente com características especiais.

O estoque de ideal deve ser dimensionado com base na variabilidade da demanda, ou seja, a real necessidade do consumo. Parâmetro que é um desafio pois depende da expertise do prescritor e da política da institucional de gerenciamento do sangue do paciente ou Patient Blood Management (PBM). Iremos descrever abaixo uma metodologia de estoque descrita em 2005 pela AABB, que pela nossa opinião, mais de adapta a rotina brasileira pois não precisa de um software específico, visto que apenas de uma planilha de Excel e dedicação de análise são suficientes:

  1. Determine o uso total de hemocomponentes, por grupo sanguíneo, ao longo de vários meses (mínimo de 6 meses)
  2. Divida pelo número de dias do período, desta forma será obtida a média de uso diário 
  3. Multiplique um percentual de uso em emergência (essa variável irá depender do porte do hospital, em especial para o atendimento de transfusão maciça)
  4. Multiplique pelo número de dias de estoque que você precisa manter (idealmente 3 dias)

Observações importantes:

  • Devido a distribuição populacional, o estoque de hemácias do grupo O positivo será mais fidedigno, devendo ser validado retrospectiva ou prospectivamente com o consumo da agência.
  • Importante definir qual é o porte do bloco cirúrgico e média de utilização de bolsas de sangue das cirurgias do seu serviço, ou seja, construir seu próprio Maximum Surgical Blood Order Schedule (MSBOS) qual é verdadeira taxa de utilização do seu perfil de atividade cirúrgica (mas isso é assunto para outro blog).  
  • Outros fatores também são importantes, como tempo de recomposição de estoque do seu distribuidor de hemocomponente e validade média dos produtos. 

A confecção do estoque ideal não é um número estático, mas um processo de gestão contínua. A integração entre a metodologia e a análise de consumo fornece ao Responsável Técnico as ferramentas necessárias para garantir a abastecimento institucional com eficiência financeira e segurança clínica.

Esperamos que tenham gostado.

Até a próxima,

Equipe Erytro 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS CONSULTADAS

  1. Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS). Recomendações para a Estimativa da Necessidade de Sangue e de Hemocomponentes. Washington, D.C.: OPAS, 2010. ISBN 978-92-75-73120-8.
  2. AMERICAN ASSOCIATION OF BLOOD BANKS. Blood utilization management. In: AABB Technical Manual. 23. ed. Bethesda, MD: AABB, 2005. cap. 3, p. 89-95.
  3. Ali A, Auvinen MK, Rautonen J. Blood donors and blood collection: The aging population poses a global challenge for blood services. Transfusion 2010; 50: 584-8.
  4. Anderson SA, Menis M, O’Connell K, Burwen DR. Blood use by inpatient elderly population in the United States. Transfusion 2007; 47: 582-92.
  5. Desalvo F, Verlicchi F, Tomasini I. An estimate of future transfusion needs in the province of Ravenna made on the basis of Italian national statistics and past consumption. Blood Transfus 2011; 9: 413-8.
  6. Meneses M, Santos D, Barbosa-Póvoa A. Tactical planning in blood supply chain: An integrated demand forecasting and optimization approach. Transportation Research Part E 2026; 104429: 1-27.
  7. Momenitabar M, Mattson J, Dehdari Ebrahimi Z, Arani M. Robust possibilistic programming to design a closed-loop blood supply chain network considering service-level maximization and lateral resupply. Annals of Operations Research 2022; 328: 859-901.

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